Forgive me, masters of the mind!
At whose behest I long ago
So much unlearnt, so much resign’d—
I come not here to be your foe!
I seek these anchorites, not in ruth,
To curse and to deny your truth.

A estrofe é do poeta e crítico social inglês Matthew Arnold, excerto do seu “Stanzas from the Grande Chartreuse”, e data do séc. XIX. A emergência com que o jornalismo surge se para afirmar enquanto Quarto Poder é, sensivelmente, da mesma data.

“[Edmund] Burke disse que existiam três Poderes no Parlamento; mas, na Galeria dos Repórteres ali, está sentado um Quarto Poder, de longe o mais importante de todos”, escreveu o filósofo e ensaísta escocês Thomas Carlyle, em 1841, atribuíndo a origem da expressão ao político irlandês do Whig, partido liberal britânico da época.

Se os três Estados Gerais, chamados a Assembleia por Luis XVI para acabar com a crise vivida em França naquela altura, eram constituídos por clero, nobreza e burguesia – exactamente por esta ordem e cujo terceiro representava, na teoria, os interesses do povo -, as coisas mudaram muito desde esse tempo em que a burguesia francesa lutou para acabar com a monarquia absolutista vigente e dar início a uma monarquia constitucional.

Desde então, os Quarto-Poderes foram vários. Primeiro, na figura dos advogados franceses, que andariam a vender veredictos favoráveis aos ricos quando a justiça se apresentava no lado oposto; depois, na massa, ou seja, na multidão inglesa que reivindicava os seus direitos, nomeadamente, pelas greves – sentido que alastrou a outros países europeus; ainda, na figura da rainha consorte britânica, cujo parlamento queria impedir de exercer o poder régio sobre o país.

É, ainda, o nome dado a um romance de Jeffrey Archer sobre a vida de Rupert Murdoch e Robert Maxwell, proprietários das suas respectivas máquinas e impérios mediáticos.

Mas voltemos à ideia que Carlyle atribui a Burke, dando conta do jornalismo enquanto Quarto Poder, e cujo porquê não é difícil de entender.

– O QUARTO PODER, o que é e porque deve existir? –

Muito cedo se percebeu a importância do jornalismo na governação de um regime democrático, tanto que é considerado um elemento histórico fundamental a qualquer democracia desde há alguns séculos atrás.

Não querendo incomodar com o óbvio, a relação entre o cidadãos informados e a qualidade do regime em que vivem é proporcionalmente directa: quanto mais informados forem, mais qualidade tem a soberania que constroem no seu quotidiano.

Assim, o jornalismo tem a função de informar os cidadãos e estabelecer um fluxo contínuo de informação entre estes e o governo, entre o governo e estes.

Ou seja, o jornalismo tem a função de manter os cidadãos alerta sobre as acções dos seus representantes, de forma a darem corpo à sua participação na democracia (nomeadamente, participativa como a portuguesa) e poderem tomar medidas correctivas da mesma: protestando sobre as acções tomadas em seu nome e em sua representação ou alterando o sentido de voto na legislatura seguinte, por exemplo.

Seria o jornalismo, através dos media e enquanto Quarto Poder, os olhos, os ouvidos e, até mesmo, a voz – construido por e contruindo uma opinião pública informada – do povo.

Se o jornalismo não oferecer um escrutínio constante das acções Governo (bem como dos sistemas legislativo, judicial, e corporativo – como veremos adiante), e informar os cidadãos sobre as suas acções e o impacto destas nas suas vidas, o Governo deixa de ser responsabilizado pelas suas acções e deixa de responder perante os seus cidadãos. É simples assim.

Dizia Jorge Coelho, político português do Partido Socialista, no espaço de comentário semanal que tinha na SIC (agora passado para a TVI), que “não se pode voltar atrás numa lei aprovada por 80% dos deputados da Assembleia da República”. Mas não eram estes deputados os representantes do povo? Ou deixam de lhe responder durante quatro anos até que, no último, uma qualquer campanha eleitoralista os coloque, de novo, no poder? Não ter um jornalismo forte traz problemas: um deles é este.

Outra função estrutural do jornalismo é garantir que os cidadãos são expostos a opiniões contrárias às suas. Isto porque tomar decisões conscientes por parte dos eleitores requer conhecimento de diversos pontos de vista, caso contrário não seriam conscientes.

Desta forma, o jornalismo abre espaço ao debate na sociedade, dando o mesmo espaço a todos os pontos de vista, moderando-o e protegendo-o para que todos os argumentos possam ser ouvidos. E é este um dos problemas das chamadas “bolhas de opinião”, criadas de forma sintética e através de algoritmos nas redes-sociais.

Deixar o eleitor informar-se sobre qualquer assunto sem a mediação do jornalismo vai levá-lo à procura de pontos de vista que confirmam aqueles que o próprio já tinha – procurem num motor de busca o termo “confirmation bias” e vão perceber o que estou a falar.

O jornalismo tem responsabilidade para com o eleitor/cidadão, tem deveres éticos e deontológicos históricos a cumprir, que não pode (ou não deve) ignorar. E esta mediação é baseada num código deontológico e num compromisso ético que nunca deve ser esquecido.

Quanto maior noção desse facto tiver um jornalista ou um editor, quanto mais por estes valores se bater com a administração, mais a confiança dos seus leitores merece determinado orgão de comunicação-social.

A aliar a tudo isto que se tem vindo a perder, há um novo Poder no sistema sobre o qual há muito para escrever, muito para informar e muito esclarecer.

– CORPORATIVO, o Primeiro, e a queda do jornalismo para Quinto. –

Hoje, cerca de 300 anos depois, o mundo é uma aldeia global – que chavão bonito – e, na democracia representativa portuguesa, afiguram-se cinco poderes como, aliás, em toda a parte do mundo – dito “desenvolvido” ou não.

Ao contrário da monarquia constitucional francesa do século XIX, já não é claro qual dos poderes tem a responsabilidade de representar o povo. Claro é que deixou de ser a burguesia e esta, não só não representa o povo, como garantiu o lugar de primeiro poder, subjugando executivo, legislativo e judicial (e também o alegado poder que teria o jornalismo) ao seu comando: o poder corporativo.

Sob o poder corporativo, caem e levantam-se ministros e lobbies, enquanto se apropria de aparelhos do Estado e orgãos-sociais vitais; revêem-se e mudam-se leis com total controlo sobre os fluxos de recuros e de capital, económico e social; e, claro, quais advogados franceses de séculos idos, só os pequenos e médios são mantidos em curta rédea, muitas das vezes por delitos muito menos significativos para o mau-estado da Nação. Nas palavras de Noam Chomsky, “para os poderosos, crimes são aqueles que os outros cometem”.

A aliar a este facto preocupante e inegável, existe o controlo social conseguido através dos meios de comunicação de massa, alimentado pela publicidade agressiva, o marketing que conhece melhor o público-alvo que o público-alvo se conhece a si, os metadados que mostram tendências a muito larga-escala, o “click-bait”, a meia-verdade, a desinformação.

A promoção da cultura de consumo atinge, todos os dias, um pico novo e esse movimento não dá sinais de vir a abrandar. Em todo o lado, de todas as formas, há um combate violento pela nossa atenção – que é limitada.

A atenção do público, hoje, é tanto ou mais dinheiro que o tempo. E se não percebermos como é que este combate acontece, então vamos dar a nossa atenção a quem jogar de forma mais hábil com a nossa psicologia sem nos conseguirmos desamarrar do grilhão.

Por outro lado, a cultura de consumo afasta tanto os cidadãos da informação e do pensamento como os aproxima do entretenimento vazio e da distracção, alterando os hábitos em larga escala sem que o indivíduo esteja na posse de conhecimento suficiente sobre como estes mecanismos funcionam para poder, sequer, pensar em se defender. Onde anda o melhor amigo do Homem, o velho cão-de-guarda, quando precisamos dele?

Pão e circo já funcionavam na Roma Antiga para distrair do controlo da sua vida o pobre cidadão. A cultura da imagem é um bom indicador disso mesmo – só fica a dúvida se será pão se será circo. Até estamos a desenvolver um novo osso no pescoço para conseguir acompanhar o feed.

A violência, o sexo, a trama da vida alheia, a intriga, o elevar ao estatuto de “famoso” pessoas sem nada para dar. Afinal, “é isso que as pessoas querem”, frase repetida ao máximo expoente até que convença aqueles que não têm intelecto onde se agarrar, numa lógica única e exclusivamente comercial, e a quem basta um (baixo) rendimento, um medo da descartabilidade, a quem quer lamber a mão do dono por opção.

– E o que NÃO É jornalismo, no geral –

Mas não era ao jornalismo, que faz da responsabilidade pelo espaço-público uma profissão, que cabia fazer a mediação de conteúdos?

Este controlo é conseguido, também, com a participação de muito maus profissionais. Não é só a lógica comercial suicida que afasta os cidadãos, não é só a dependência de uma publicidade que diz o que tem a dizer, seja ou não verdade, para garantir o seu rendimento. É, também, a existência de maus jornalistas, que não entendem a profissão nem como esta funciona, em que boa parte sabe melhor os descontos que consegue com a carteira profissional do que qualquer uma das teorias da comunicação.

Com egos alimentados pela integração nos grandes meios (que toda a gente gosta de pertencer), pelo poder que lhes é dado no controlo da informação, pela falsa pretensão de que “sabem” quando não sabem mais que qualquer um após desenvolver, durante tantos anos, a sua profissão. Pensar vale mais que saber, porque para saber basta pesquisar.

E nas redacções não pode haver vozes que contrariem o estatuto-social que demoraram tanto tempo a atingir. Querem ser uma elite, que se usa (ou será usada?) dos seus contactos para se promoverem nas áreas em que actuam. Outros procuram a sombra das vantagens juridico-penais que têm por serem jornalistas, ou por terem um orgão de comunicação-social, exercendo depois uma actividade contrária aos princípios da profissão.

Desde a formação, valorizam-se aqueles que, por interesse ou desconhecimento, dão continuidade ao discurso que se pretende ver impresso; ao passo que se marginalizam outros, cuja visão do mundo não lhes permite pactuar com o vigente e põe em causa a ordem das coisas – é, no mundo, a nova selecção-natural.

As “hard skills”, competências técnicas adquiridas com a formação e facilmente aperfeiçoáveis em ambiente de trabalho, são colocadas muito à frente de “soft skills” como a ética profissional, a confiança ou a resolução de problemas.

Há, ainda, “soft skills” mais valorizadas do que deviam nesta profissão, como a flexibilidade, o relacionamento interpessoal, a paciência, a aceitação. Quais praxes de veteranos universitários? Afinal, “um dia vou ter aquela capa e poder praxar”.

E “mais do que deviam” porque interessam à chefia mas não trazem nada de novo a um jornalismo focado no cidadão ou na sua função social. A um médico, a um polícia, a um juiz, como a um jornalista, deve ser exigida uma maior elevação moral, ou não seria necessário o reforço da sua protecção jurídico-penal.

Ainda, a falta de regulação, de normas, a anedotização da Entidade Reguladora para a Comunicação Social, o desconhecimento sobre os infinitos estudos académicos que existem sobre a área, a falta de conhecimento sobre a profissão, a sua história, a sua função democrática e social.

Enquanto ninguém parece saber muito bem o que é o jornalismo, ou para onde evolui, a preocupação última e primeira é com a sua rentabilidade – a ditadura do clique, aceite como o destino a que estão fadados sem perceberem que não existe sem a sua cooperação.

Daí assistirmos, todos os dias desde há décadas, à substituição do jornalismo pela comunicação-social, que pega nas matérias e as veicula sem se perguntar sobre nada, ignorando regras básicas como o contraditório ou a citação das fontes; como se não fosse mais a profissão do que um grande gabinete de discursos oficiais. Quem, o quê, quando e onde, muito à frente do como e do porquê.

É desta forma que a máquina da comunicação-social se torna numa indústria com um poder e uma influência imensa, que não olha a meios para perseguir a sua agenda comercial, política e de culturalização. Sem esquecer a corporativa também, cujos métodos e a escala ultrapassam, interminavelmente, o jornalismo de outrora.

Toda a gente, a alguma altura do dia, seja sobre que assunto for, porque o procurou ou foi exposto a ele, acaba por receber conteúdo informativo ou noticioso. Toda a gente. Como refere Julianne Schultz, da Universidade de Cambridge, no seu “Paradoxos do Poder Bastardo”, “a magnitude dos negócios em torno das notícias, à escala global, é esmagador, os lucros são impressionantes, os valores são questionáveis, e o poder – que pode ser exercido de forma cínica – imenso”.

As audiências de televisão e dos sites são medidas a cada notícia, individualmente, e aumenta a pressão para se dar maior importância às mais populares e menos importância às menos populares”. Na opinião da autora, os valores do entretenimento “enlamearam” a vida pública. Diria que enlamearam também a opinião.

E continua, adiante, consciente de que “os media informativos são orientados de forma crescente pelas expectativas do entretenimento. Até as próprias notícias são julgadas no seu valor de entretenimento (vulgo infotainment)”. Mas nada se cria, nada se perde, tudo se transforma.

Mauro Wolf, sobre a matéria, ainda na década de ’80, dizia: “um programa deve divertir o público e, por isso, evita tudo o que seja tão polémico que provoque críticas sociais; um programa não deve afastar os ouvintes e, por isso, alimenta os preconceitos do público; evita o especialismo para que seja garantida uma audiência o mais vasta possível; no sentido de agradar a todos, tenta evitar temas controversos. Acrescente-se a isto o pesadelo de todos os produtores, isto é, o facto de o ouvinte/telespectador poder escolher um meio de comunicação concorrente”. E voltamos ao confirmation bias. Tudo = 1, afinal.

Sobra ainda a desinformação – e paremos de chamar fake às news -, sobre a qual Paula Torres Carvalho escrevia no Público, de volta a 2010 e muito antes do celeuma contra as redes-sociais, a internet, Trump, e outras intervenientes que apenas ajudaram a fixar uma tendência que já se vinha a acentuar: “todos os dias se divulgam notícias falsas ou incompletas que, com uma velocidade espantosa, ganham crédito e influenciam a opinião pública. Criam-se convicções baseadas em mentiras por via desta prática generalizada hoje na imprensa portuguesa (…) porque os jornalistas, com o poder de assegurarem os direitos constitucionalmente consagrados de informar e de ser informado, tornam-se eles próprios instrumentos de interesses e de poderes estabelecidos”.

Já o jornalismo, qual cão-de-guarda, qual observador, qual voz do povo, qual porteiro, subjugado às lógicas económicas e comerciais, mantido manso, cordial e fiel ao novo dono (e “dono” porque o alimenta), o poder primeiro: o corporativo. Essa mão ele não pode morder, até porque pouco morde um cordeiro.

Interioriza isto o gestor do grupo, que nada sabe (ou sabe demais?) da profissão, desconhecimento esse (ou ideologia) que se apressa a transmitir a quem lhe sucede na hierarquia organizacional. Não teria lá chegado se assim não fosse.

Uma coisa é certa mas pouco importa: “por actividade jornalística entende-se o exercício, com capacidade editorial, de funções de pesquisa, recolha, selecção e tratamento de factos, notícias ou opiniões, através de texto, imagem ou som, destinados a divulgação, com fins informativos, pela imprensa, por agência noticiosa, pela rádio, pela televisão ou por outro meio electrónico de difusão (art.º 1.º n.º 1 do Estatuto do Jornalista)
(…)
Deixa de ser considerada actividade jornalística o exercício das funções supra descritas quando desempenhadas ao serviço de publicações que visem predominantemente promover actividades, produtos, serviços ou entidades de natureza comercial ou industrial (art.º 1.º n.º 2 do Estatuto do Jornalista)”.

Sobra uma profissão focada, agora, em objectivos, qual call-center de telecomunicações e o seu departamento comercial. É com esta agenda que se lamenta o afastamento dos leitores? É com esta agenda que se critica o pouco interesse da sociedade e do cidadão em pagar pela informação? Não façam isso, que é hipócrita. Deixem cair o jornalismo, o cidadão informado; e a democracia participativa, por sinal.

– Agora em Quinto, A ASCENÇÃO. –

Em outras alturas, na História, tivémos esta necessidade de um contrapeso na democracia que penda para o lado do cidadão, o principal motor desta doutrina, que, após tantas lutas travadas, volta a ser premente.

Enquanto a conjuntura pede a união dos orgãos de comunicação-social em torno deste motor, os grupos de media mantém aberta a guerra das audiências, mais preocupadas com o lucro do que com a população. Nas palavras de Jack Fresco, autodidacta e engenheiro social norte-americano, e por tudo o que foi referido acima, “this shit got to go”, esta merda tem de acabar!

Como percebemos, já não é função do jornalismo ocupar-se apenas dos Três Poderes históricos, há um novo poder a minar a redacção. As pressões que este faz ultrapassa em muito as pressões sofridas até então. É, por isso, urgente voltar a fazer jornalismo voltado para o cidadão. Voltar a defendê-lo dos poderes invisíveis que o subjugam, cada vez mais, à ignorância e à alienação.

Há, então, que talhar regras na profissão, há que separar o trigo do joio, há que dizer que sim à peça e ao patrão mas também há que dizer que não, há que ser exigente com a responsabilidade para com o público, a ética, a deontologia e os Estatutos da profissão.

Há que voltar a abrir os livros com que se formaram (pelo menos aqueles que têm formação outra que não os anos de profissão, com todo o respeito por quem cá anda há muitos anos) e há que ler os novos e os novos estudos sobre a profissão.

Não podemos limitar-nos a ler sobre o mundo em que vivemos e os assuntos sobre os quais escrevemos, e os romances irrelevantes que nos tecem as frases feitas, mas também sobre a profissão que exercemos. Há que combater a escassez de tempo que não nos deixa trabalhar, devolver o jornalismo a um ritmo pensado e lento. Há que ter tempo para ter vagar.

As críticas não caem bem a toda a gente, quem sou eu, afinal. Mas o problema não sou eu, o jornalismo não estaria na merda se fosse bem feito todos os dias. Quem tem feito um mau trabalho que se aborreça com as críticas. Os outros, vão continuar a fazer um bom trabalho igual.

E é excusado ignorarmos, desculparmo-nos, apontar o dedo aos outros para segurar o nosso lugar. Há que perceber que o jornalismo não se faz das 9 às 5, faz-se 24/7 com muito sacrifício pessoal. Como um soldado combate pelo seu país e é por ele que morre, o jornalista tem obrigações a cumprir para com a sua população. A ela e só a ela deve justificações.

E mesmo que o comum cidadão não perceba da importância de tudo isto na sua vida, ninguém lhe paga para perceber e não é de palmadinhas nas costas que se faz a profissão; é obrigação de um jornalista digno desse nome ser o cão-de-guarda na mesma, que protege o rebanho dos lobos durante a noite, para que este possa pastar à-vontade assim que o sol raiar – a vida não está fácil para o rebanho de qualquer das formas, podem tirar o nariz do computador, ir à rua e perguntar.

A este respeito, Mauro Wolf diria: “em consequência da acção dos jornais, da televisão e dos outros meios de informação, o público sabe ou ignora, presta atenção ou descura, realça ou negligencia elementos específicos dos cenários públicos. As pessoas têm tendência para incluir ou excluir dos seus próprios conhecimentos aquilo que os mass media incluem ou excluem do seu próprio conteúdo. Além disso, o público tende a atribuir àquilo que esse conteúdo inclui uma importância que reflecte de perto a ênfase atribuida pelos mass media aos acontecimentos, aos problemas, às pessoas. (…) a compreensão que as pessoas têm de grande parte da realidade social é-lhes fornecida, por empréstimo, pelos mass media. Os mass media, descrevendo e precisando a realidade exterior, apresentam ao público uma lista daquilo que é necessário ter uma opinião e discutir”.

Os profissionais que não compreendem isto deviam – com toda a humildade no pedido -, desde já, mudar de área e entregar a carteira. Há muitas áreas de trabalho, muito melhor pagas e sem tão grande exigência ética e profissonal, não tenham medo da muito em voga reconversão profissional.

Temem os grandes proprietários, hoje, que a internet ataque o seu poder. Talvez ataque mesmo. Por outro lado, para o jornalismo, talvez a internet seja a única salvação. Mãos à obra, camaradas. Quando o jornalismo é bem feito, não há como não vender, e a força económica vai ser adquirida mal tenham a confiança do público pelo serviço-público digno que prestam.

É-me indiferente, a este ponto, se o jornalismo se torna num contra-poder, num contrapeso do poder ou num super-poder – recorrendo à nomenclatura de Afonso Albuquerque, consultor e estudioso das Ciências da Comunicação no seu ensaio “As três faces do Quarto-Poder” – mas quero que tome o seu poder de volta e o aponte no sentido certo. Que não é o nosso umbigo o sentido nem o lucro, isso posso garantir.

Numa carta publicada na Visão em 2017 podia ler-se: “num ponto todos concordam – os jornalistas moldam nossas vidas e são eles o coração da democracia, na medida em que são a primeira linha da sua defesa. Um bom jornalista é guardado por um país, para a vida. Em muitas ocasiões, para sempre. Mas não se deixem vergar pelo peso da responsabilidade. Não cedam aos interesses económicos, defendam a verdade acima de tudo, tentem não perder a chama e a paixão de quem sabe que fazer serviço encomendado de propaganda e criação de factos alternativos não é aceitável“. 2017 já vai longe, diria a última-hora.

Quero que se cumpra a profissão e a democracia, quero que se levante a sociedade deste estado de alienação. Chega do povo ser sereno, que não é apenas fumaça. Para já, não precisa o jornalismo de se preocupar em lhe terem tirado o lugar na hierarquia, Quinto Império é sempre um bom nome e ajuda a sua nova posição. Findo aqui, sem nacionalismo mas com muito orgulho do meu País, que se cumpra Portugal.

Fernando Pessoa escrevia ao conde Keyserling, em abril de 1930, para lhe dizer o seguinte: “se julga que esta carta é uma carta de loucos, saiba que isso a nós nos é indiferente. O contrário, de resto, é-nos igualmente indiferente”. Não sei dizer melhor.

Já Matthew Arnold, no seu “Stanzas from the Grande Chartreuse”, continuava:

Wandering between two worlds, one dead,
The other powerless to be born,
With nowhere yet to rest my head,
Like these, on earth I wait forlorn.
Their faith, my tears, the world deride—
I come to shed them at their side.

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