A libélula (ou dragonfly, em inglês) é um insecto carnívoro, uma ave de rapina no seu género, com corpo alongado, dois pares de asas semi-transparentes e olhos desenvolvidos para caçar.

É pela sua natureza  predadora que os olhos deste insecto se multiplicam em cerca de 30 mil facetas individuais, cada uma delas criando uma imagem no cérebro do artrópode de forma individual, e cujos seus 16 neurónios compilam numa só imagem do meio que a envolve – permitindo-lhe, além de uma visão a 360º, fazer banquete dos demais insectos que pairam no seu habitat. Uma mosca doméstica tem cerca de seis mil facetas, cinco vezes menos.

Já no mundo digital, Dragonfly é um projecto interno da Google na China, predador da liberdade de expressão. Num meio livre por natureza, o projecto tem originado bastantes críticas – a começar pelos colaboradores da multinacional, avançou a The Intercept -, e suscitado perguntas às quais a empresa tem evitado responder, de acordo com a mesma publicação; pelo menos, até agora.

Sundar Pichai, CEO da Google, esteve presente, dia 15 de outubro, no 25º aniversário da Wired, para dar algumas respostas. Nomeadamente, desde quando está a Google no país ou porque é que a auto-censura deste novo motor de busca não é um defeito de fábrica.

O QUE DISSE A GOOGLE QUANDO DECIDIU FALAR.

“Sempre que trabalhamos num país, tentamos equilibrar um conjunto de valores. Providenciamos aos utilizadores o acesso à informação, liberdade de expressão, privacidade na utilização, mas também cumprimos as leis dos países onde trabalhamos”, justifica Sundar Pichai, quanto ao motor de busca Dragonfly.

Segundo o CEO da tecnológica, o objectivo foi “perceber como seria o Google se operasse na China, a quantas pesquisas conseguiriamos responder”. Pichai garantiu ainda que a sua empresa conseguiria assegurar acima dos 99% das pesquisas feitas no motor de busca e estaria em posição de assegurar um “melhor” acesso à informação do que o existente na actualidade.

Mesmo tendo de fazer o a gestão entre o acesso à informação e as “condições existentes” – nomeadamente o controlo de informação promovido pelo Governo chinês.

Para já, contudo, o projecto não deve avançar. Segundo a Google, é muito cedo e a empresa não sabe se “iria ou conseguiria fazer isto na China” – quanto mais não seja porque a Google está banida no país. Mas, para o CEO, foi importante “explorar” e “pensar seriamente no assunto (…) a longo-prazo”, dada a importância do mercado em causa e o número de utilizadores que este implica. onsiderando que a China contribui com cerca de 20% para a população mundial.

Os esclarecimentos, contudo, mantém o conteúdo que a corporação já tinha dado a alguns senadores norte-americanos, em agosto deste ano.

CENSURAR RESULTADOS NÃO É NOVIDADE.

Apesar de tudo parecer novidade, Sundar Pichai trabalha na Google desde 2004. Em 2010, quatro anos após ter entrado no país, a Google fazia um ultimato à China: a introdução no mercado de um motor de busca sem qualquer censura, “dentro da lei, se possível”, ameaçando abandonar o país caso não tivesse sucesso.

Esta vontade de mudança na estratégia da empresa, entre outras coisas, deixa-nos perceber que um motor de busca que censura alguns dos resultados que devolve ao utilizador não é, propriamente, uma novidade. Quanto mais não seja porque a ameaça é feita após quatro anos a operar no mercado.

Na época, a acção procurava dar resposta à “Operação Aurora”, como contou a Wired em 2010, um ataque cibernético em larga escala – e com origem num grupo associado ao Partido Comunista da China – que atingiu, entre dezenas de multinacionais, a própria Google. Constantes da lista de alvos estavam ainda gigantes como a Adobe Systems, a Yahoo ou as empresas de cibersegurança Juniper Networks e Symantec.

Nesse mesmo ano, tecnológica abandonou o mercado dos motores de busca mas, ao contrário do que tinha prometido, não abandonou o país. Um bom exemplo é o sistema-operativo Android, produzido pela Google e bastante popular entre os utilizadores chineses – como acontece, aliás, com a grande maioria dos dispositivos móveis espalhados pelo mundo.

Quanto ao motor de busca livre de censura, e oito anos passados, a tecnológica parece ter reconsiderado. Já as justificações para tal, mantém-se inálteráveis: as concessões ao governo chinês, de forma a lhes ser permitido operar no mercado – tal como aconteceu em 2006.

CÓDIGO AMARELO: A ÉTICA IMPORTA.

Em 2018, parece mais difícil à empresa manter o secretismo sobre todos os seus projectos, e o plano confidencial de lançar uma versão censurada do seu motor de busca acabou por ser trazido a público pela norte-americana The Intercept.

crédito: Vision Times

Segundo noticiou aquele orgão de comunicação-social para a Internet, uma carta a exigir que a liderança da Google reconheça a situação de Código Amarelo – um alerta interno que significa “crise” – tem circulado entre os colaboradores, na qual se queixam de “não ter a informação necessária para tomar decisões eticamente responsáveis sobre o seu trabalho, o seu projecto, e o seu emprego”.

O que também não tem trabalhado a favor da Google é o código de ética da Associação de Maquinaria Computacional (ACM), a maior organização para o sector, da qual muitos dos colaboradores da empresa são membros. Segundo o código, os seus membros “devem tomar medidas para impedir a criação de sistemas e tecnologias que oprimam ou tirem poder às pessoas” e “usar as suas capacidades para benefício da sociedade”.

RESPONDE_

comentar_
nome_